Um framento de YUI

Choveu.

Não o tipo de chuva que ele era acostumado a admirar lá do elevado. Era uma precipitação suja, que lavava a alma pecadora dos altos afortunados e desaguava sobre a cabeça dos comedores de rato, como eram carinhosamente chamados aqueles que viviam por aqueles cantos. Os esgotos, da cidade acima das nuvens, tapavam em sua complexidade de canos até mesmo as luzes do sol, o que tornava, alegoricamente, aquele pedaço de chão totalmente infértil. Dali, ele não podia ver as monstruosas torres lá no alto que, tal qual pontes, ligavam o céu e a terra. A escuridão era uma visita progressiva, se retirando apenas pelos inconstantes vai e vem das sirenes e iluminação policial. O cheiro invadia as narinas de maneira feroz. Não era possível distinguir os odores que brotavam das arestas mal cuidadas, se fundiam de maneira homogênea, tornando o péssimo em pior, indo de urina à óleo de carro fritando yakissoba. O reino da Dinamarca parecia convidativo quando comparado àquele lugar.

Ele se disfarçava por trás da barba e do rabo de cavalo sedoso, à medida que chamava atenção com o recém adquirido sobretudo largo de detetive caricato. Tentava esconder o rosto à cada passo rápido, olhada irregular ou grito por socorro. Os vendedores cuspiam, puxavam e gritavam ao longo das ruas principais, uma feira a céu fechado. O neon cegava os olhos não acostumados com as propagandas imperativas, os nomes com duplo sentido ou os scanners faciais piratas.

Prove do verdadeiro amor por alguns créditos, fazemos com que viva a vida de um príncipe da Disney! Ou princesa se preferir, meu chapa. lhe falou uma mutação ambulante saturada de implantes.

Viciavam-se no melhorar das capacidades humanas, ironicamente transformando-os naquele pedaço de carne pelo resto da vida, distorcendo totalmente a definição da espécie. Negou com um aceno, e continuou. Checava suas coordenadas em seu braço à cada pernada, estava se aproximando do seu destino, e não conseguia conter sua casual ansiedade indômita. Suava.

“CAMPO SANTO”, era o que dizia as letras garrafais sobrepujando a infinita noite da cidade baixa. O corredor era estreito e silencioso quando nivelado ao lado de fora, dando caminho à um apático cubículo. Um balcão de madeira com peças enferrujadas e sobressalentes de naves ou robôs em exibição, tomava todo o espaço da parede e inclusive do chão.

Uma sineta descansava incólume no balcão, quando uma sombra surgiu do outro lado do guichê, assustando momentaneamente o falso detetive. Um senhor com suas marcas do tempo encrustadas na pele, o olhava de volta com olhos artificialmente cibernéticos por entre as baforadas de um charuto. Tatuagens esculpiam seu couro cabeludo desnutrido em conjunto de uma queimadura de 3º grau em todo o lado esquerdo do que deveria existir a bochecha.

O que isso faz? — perguntou o com rabo de cavalo, apontando com o olhar para o sino circular.

O que está procurando aqui gaijin? — o velho respondeu, ignorando-o.

Eu… — pescou no braço. — …estou procurando uma peça para o YT-1300.

Qual peça?

A peça é para medir o eletromagnetismo externo, tenho prefrência na marca Tigre ou Carmanti. — respondendo novamente após uma pausa, para avaliar a pesca em seu dispositivo implantado.

Carbanti? — o velho questionou.

Isso! Carbanti! Desculpa.

Você é um imbecil. — tragou — Devo acreditar então que você é o MBakunin?

Sim, sou eu. — respondeu estendendo a mão para o vazio, sem a retribuição do velho. — Você deve ser o Brooker. — concluiu devolvendo a mão ao bolso.

Não, sou apenas um de seus fiéis agentes. Ele não pode se desconectar da rede, as informações não param, e o Brooker também não pode parar. Ele é como um tubarão, se ele para de nadar, ele morre. Literalmente até diria.

Eu… Posso ver a mercadoria?

Fecha as portas aí atrás garoto. E me acompanhe. — cuspiu.

Ele trancou a passagem da loja como lhe foi pedido. O idoso, abriu parte lateral do balcão forçando passagem por entre parte do entulho. O jovem quando se aproximou, percebeu que, por de trás do mesmo, havia, além de uma cadeira e mais lixo oxidado, uma escotilha entreaberta que descia de maneira circular. Como esgoto escorrendo por um bueiro, desceu atrás do idoso, sendo guiado apenas pelos restos chamuscados do charuto que impregnavam o ar. Decaíram ouvindo o barulho do silêncio.

Uma abóbada mal iluminada fazia parte de, provavelmente, algo tão antigo quanto a primeira viga na cidade acima das nuvens. Ali o vento soprava de maneira turva, era possível escutar os passos por cima de suas cabeças. Eles estavam em algum lugar entre a antiga estação de metrô, e o asfalto imundo da parte baixa da cidade. Fractais de telas holográficas surgiam como pop-ups aos olhos do jovem, emaranhados de fios, downloads e informações e pingos caindo do largo teto serviam de adorno àquele esquecido sítio.

E você não é o Brooker?

Se eu fosse, eu não estaria negociando com você. — tragou.

O velho foi na frente, puxando uma enorme tela de proteção que jazia no centro do salão. Revelando uma enorme maca, similar à uma mistura de cadeira de dentista e um sarcófago moderno de um faraó. Ao redor um maquinário pesado servia como seus dispositivos periféricos, infinitos cabos e aparelhagens que, em uníssono, serviam como seus asseclas.

Você pode testar, mas são apenas 10 segundos de demonstração.

Mas como vou saber se é ela mesmo? Não é bem assim que as coisas funcionam. — indagou.

Eu sei, fizemos um compilado de algumas das sensações, não é uma demonstração comum. Acredite quando digo, gaijin.

Eu ainda não acredito, me desculpe. Ela era a artista mais conhecida da terra e entre as colônias, não é uma memória fácil de se conseguir. — aumentou a voz, sibilando desespero.

Você quer testar essa porra, ou não?! Se você não acredita, qual a sua razão para estar aqui então? Você chegou até o contato do Brooker, não é qualquer merda. Não vou te contar como conseguimos, ou deixamos de conseguir. Não quero saber se você roubou a fortuna de seu pai bilionário para pagar isso, só senta e testa. Meu trabalho é só esse.

Eu… Nunca fiz isso antes.

Deita aí. Você pode só se sentir um pouco tonto quando terminar, dá um barato.

Ele se deitou. O barulho que se sucedeu ao fechar das portas na sua frente o fez tremer. Uma lágrima de seus poros atravessou sua espinha, poderia estar trilhando um caminho sem volta. Em sua cabeça valeria a pena o risco, todos aqueles anos de adoração seriam culminados no ápice da personificação, da vivência, de estar ali, por baixo de sua pele, nem que por míseros 10 segundos. Seus olhos se fecharam ninguém. Abriram-se YUI.

Um segundo por sensação. Em um momento estava num palco, cantando para milhares de pessoas que a acompanhavam num coro, aos olhos atentos de paixão, um ícone da luxúria. O carinho nos pedidos de autógrafo na rua, nas fotos e tentativas de abraço ou simples toque, na entidade que agora ela era. Nos sexos encomendados por homens sem rosto, os poderosos desconhecidos, e os ilustres submissos à sua vontade. As drogas coloridas camufladas nos holofotes das festas estapafúrdias que jamais aconteceram. Os troféus comprados pela gravadora, ou votados por fãs e algoritmos incessantes em repetidores na Etiópia. O desgaste. A briga. A depressão. O cinto amarrado no pescoço. O salto para a morte.

Quando a porta se abriu, o jovem saltou para fora da máquina. Não se segurou em pé, caiu de joelhos. Chorando. Vomitou. Misturando às lágrimas o que tinha comido no almoço.

Era ela. Era ela! — gritou gaguejando e tremendo. Limpou o resto do que sobrara na boca, tentando se levantar.

Que bom gaijin. — o velho sorriu.

Vale todo e qualquer crédito… Tudo! Até o último centavo!

۝

Bateu a porta atrás dele, com pressa. Não conseguia segurar o conjunto de emoções que lhe transbordavam o cérebro. Nunca odiara tanto aquele enorme salão quanto agora, um exagero de arquitetura para preencher um vazio incompleto.

Senhor Treeborn, aonde foi? — a governanta se interpôs em seu caminho. — Seu pai. Ele está precisando de você, pode ser seus últimos momentos.

Sai fora! Agora não! Agora ele quer minha presença? Faça-me o favor… — empurrou a senhora, subindo as escadas pulando os degraus de dois em dois.

Mas Artur!

Como um viciado à procura do seu fornecedor, ele entrou no quarto. Trancou-se catatônico, acionando a senha por dentro. As telas das notícias personalizadas explodiram à sua volta: “Vídeos do funeral da YUI, veja as homenagens prestadas pelos fãs.”, “Aumente seu pênis em 12 cm.”, “Amanhã será um dia agradável, não se preocupe em voar.”, “Corporação Treeborn em queda vertiginosa no mercado.”. Num aceno do braço, todas colapsaram entre si. Seu hospedeiro o aguardava. Abriu o capacete pela primeira vez, ainda embebedado com cheiro de novo. Conectou com pressa.

FINALMENTE! FINALMENTE! — babou. Seus olhos fecharam Treeborn, e abriram quase YUI.

Ele estava preso. Algo tapava sua boca. Um odor de sangue seco no metal rondava um nariz que não era seu. Um homem o encarava de frente, utilizando um jaleco vermelho, que originalmente deveria ser branco. Um coelho o saudava, num sorriso sinistro mascarando o verdadeiro rosto que o observava. Olhou para baixo por um momento. Ele, que não era ele, estava sem roupas, e amarrado à uma maca de maneira que ficasse, imaculadamente, em pé. A pequena sala, assim como o jaleco, era manchada da cor encarnada. O sangue era velho, assim como o medo que lhe subiu os olhos, algo ancestral.

Tudo bem. — o coelho pegou um gravador macróbio, apertando um botão em sua extensão. — Essa é a memória 17B. Uma tortura de 10 horas ininterruptas, sem deixar ocorrer o falecimento do objeto de teste. No orçamento consta o pacote completo.

Essa será configurada como uma memória-looping, então cuidado com o que você vai dizer. Pois ele pode ouvir essa mesma ladainha repetidas vezes… Até alguém lhe tirar dessa. — soou uma vez semi-mecanizada de um alto-falante.

Então vamos nos divertir por um longo, longo, tempo… Coelhinho. — disse o coelho por fim, puxando para próximo de si uma mesa com ferramentas causadoras de pesadelos inimagináveis.

Chorou.