Ao redor dos jamelões maduros

Chico nascera com os olhos abertos. Seus pais o viviam lhe contando isso, e explicando, para os demais amigos e familiares, o motivo da tamanha curiosidade que não cabia no menino. Aos 2 já pulava as grades do berço e coloca a fita de VSH do Pinóquio sem ajuda. Aos 5 subia na estante, se emaranhando entre as fotografias e peças baratas compradas em Santiago, para brincar com uma estátua do São Jorge – aquela dele matando um dragão. Aos 7 perguntava sobre as disposições das estrelas, sobre Raul e a revolução francesa. Era curioso. E isso o levou aos 9, onde agora se encontrava.

Ele não gostava do mato fechado, remanescente de uma quase extinta Atlântica, o trazia memórias de filmes aos quais eram proibidos assistir em sua idade, e assim como burlar tais regras, o garoto se sentia culpado de estar ali. A cada passo podia sentir o seu coração pular, arrastando-se em cada arbusto passado como uma memória traumática. Algo no vento parecia um nefasto presságio. A sorte era não estar sozinho. Pedro e Rominho o acompanhavam.

— Por que estamos aqui? Não estou gostando disso. — Rominho vociferou. Era o mais novo do bando, filho único, do tipo que a mãe passa protetor solar antes de cada saída. Estava usando um boné do Palmeiras que ganhara do pai, separado, que vivia além do oceano de mentiras – ou era o que sua mãe dizia.

— Calma Rominho, já já vou mostrar pra vocês o que é isso. — respondeu Pedro, balançando um saco plástico numa das mãos. — Achei no armário secreto do meu pai. Pedro era o mais velho, uma questão de meses, e de atitude. Geralmente era quem dava o primeiro passo, os outros dois sempre o seguiam. Chico era curioso, mas lhe faltava a liderança, ele jamais fora o Power Ranger Vermelho, e, na verdade, nunca possuiu tamanha intenção, afinal em sua concepção o branco era muito mais legal.

Já estavam caminhando agora por quase 20 minutos, se afastando dos prédios que agora ficavam para trás, como meros observadores alheios. Cambaleavam por entre as mangueiras e jaqueiras, passaram por um forte odor putrefato que logo fora substituído pelo de erva daninha e o barulho tímido das cigarras. A trilha seguia adiante, num tacanho fio de terra batida, até uma pequena clareira formada por pedras marcadas pelo tempo, tendo dois pés de jamelão como porteiros. A chuva que mais cedo molhou as árvores agora caia remanescente das copas no passar do vento, num conjunto do ameno com o vento frio do verão. Pedro parou.

— Aqui, acho que aqui não seremos vistos. — Pedro suspirou com rapidez, rasgando o saco plástico em seguida, revelando uma revista.
— Tudo isso por uma revista?! Tenho várias delas lá em casa! — gritou Rominho.
— Shhh! Cala a boca e olha. Não é qualquer revista. — espiaram.

Chico não entendeu o furor. As fotos eram estranhas, jamais tinha visto outras pessoas sem roupa antes, talvez a sua irmã mais nova, mas isso não contava. Uma estranha sensação formigava subindo do dedão até a altura da perna, ele não controlava ou sequer entendia o que aquilo significava. Rominho então segurou, com as duas mãos, sua bermuda. E ali estavam os três, num circulo ao redor de um santuário desconhecido, enquanto Pedro folheava as páginas duplas e triplas, abrindo-as quando as mesmas apareciam. Algumas vezes suspiravam, simulando uma ponderação de sommelier inexperiente, a medida que a revista sambava na mão do jovem, girando e gingando o objeto nas mãos. Chico segurou.

Foi quando um vulto surgiu, ao longe, por fora do raio de visão do menino, que o intrigou. Largou de mão a revista, apenas o suficiente para notar uma quarta pessoa se aproximando. Puxou os outros dois com uma agarrada, para trás de uma das pedras. Escondendo-se o melhor que pôde, usando a memória muscular de pique escondes anteriores. Pedro enfiou a revista amassada no short, com uma fitada de pavor encarava o movimento do outro lado. Era um homem. Não parecia ter visto nenhum dos três, e mesmo se tivesse, parecia ter ignorado completamente. Em uma das mãos possuía uma corda tão embolada quanto a própria barba. Ele suspirava alto, enquanto olhava para cima, quase que procurando por jamelões não tão rosados quanto aqueles que brotavam nessa época do ano.

Rominho soluçava baixo, enquanto Pedro tapava sua boca com as costas de uma das mãos. Eles esperavam por uma chance, analisavam como uma presa que descobrira, sem querer, a toca do seu predador primário. O homem era paciente, suas vestes eram limpas, e seu semblante dogmático. Com bonança, desenrolou a corda depois de acender um cigarro. Escolheu um galho que parecia perfeito, e forte o bastante. Numa das extremidades fez um lais de guia, e amarrou a outra ponta na base do pé de jamelão, com um nó duplo laçado. Testou enfiar sua cabeça na circunferência formada, coube perfeitamente, num trago de satisfação atirou-a no galho, criando um pêndulo solitário. Subiu no pé de jamelão, provavelmente, uma última vez, vestindo o colar do fim inevitável.

Os garotos tremiam. Rominho permanecia de olhos fechados, enquanto Pedro e Chico suavam frio por trás das pedras. O batimento cardíaco acelerado confrontava-os a partir em disparada, Pedro já atirara sobrancelhadas acusadoras demais aos outros, sinalizando a corrida, mas Chico… Era curioso. No momento que o homem subiu no galho, dando-lhe pulos para testar sua capacidade, os garotos correram. Rominho gritou, aterrorizado, com lágrimas nos olhos, seguido de Pedro em seu encalço. O susto fez o homem escorregar, caindo. Chico permaneceu vislumbrado.

As órbitas esbugalhadas olharam de volta, o que durou poucos segundos. O garoto conseguiu distinguir a vida se esvaindo, tornando aquele vislumbre um agora invólucro do exício. Seus dedos do pé se contorceram, um grunhido abafado e um desespero em suas mãos, provaram o arrependimento tardio. Ele girou, ao redor dos poucos jamelões maduros, com os membros duros como aço, até que o silêncio invadiu todos os cantos da clareira. Chico continuou, velou o indigente ainda incólume numa súbita reação de sua bexiga. Mijou-se ainda ereto, molhando o seu short favorito do Batman. Chorou, sem motivos, mas não desviou a visão, pois o homem também não desviara. Ele parecia sorrir. Seguiram se fitando, enquanto a tarde lentamente caia como um manto frio, cobrindo e zelando aquele encontro que marcaria pra sempre a vida de Chico, misturando espectros distintos como a vida e morte, ereção e suicídio, numa só regozijada.


Em algum lugar uma cigarra voltou a cantar.

hangman

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